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Jubileu (amor em qualquer idade)

por Alda Britto da Motta*

* Professora do Departamento de Sociologia e da Pós-Graduação em Ciências Sociais e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM) da Universidade Federal da Bahia.


I – DE VELHOS E FAMÍLIAS

O desvendamento das reais relações e atuais situações de família dos idosos só muito recentemente vem-se processando. Uma imagem quase mítica de fragilidade, perdas progressivas e dependência, dos velhos, perdurou forte e longamente, alimentada por suposições fantasiosas – e preconceituosas - do cotidiano, por pretensos novos discursos “científicos” e reportagens regularmente produzidas pela imprensa sobre a precariedade da saúde e o abandono dos velhos nos asilos, como se todas essas características e fatos, também reais, fossem os dominantes, ou quase os únicos.

A pesquisa mais recente das Ciências Sociais vem demonstrando uma outra realidade, multívoca, multifacetada, um quadro social de significativa heterogeneidade, no qual estão inscritas aquelas referidas situações e relações, mas também estão presentes muitas outras, alternativas, mais otimistas. Inclusive porque os idosos, diante do alongamento da vida atual, já podem ser vistos como constituindo mais de uma geração – grosso modo, os idosos “jovens” (até 70, 75 anos), e os idosos mais velhos – além de diferenciarem-se, internamente à condição de idade/geração, segundo outras características ou categorias determinantes na vida social, principalmente a classe, o gênero e a etnia (ver Britto da Motta, 1994 e 1999b).

Os estudos também já vinham apontando quão estereotipada é a figura do abandono do idoso como procedimento muito generalizado nas famílias. Debert (1992:38) refere como pesquisas da década de 60, a exemplo das de Shanas et al (1968), já demonstravam que “os estereótipos de isolamento e abandono não expressam a condição da totalidade dos idosos, nem mesmo nos países do capitalismo avançado”. Como também lembra, que nem o velho morar só é sinal inequívoco de abandono familiar, nem morar com a família significa ou garante afeto e apoio (ibid.:38).

Também nas minhas pesquisas, tanto a realizada com idosos “jovens” (1999a), como na atual, com idosos mais velhos, não encontrei a figura do abandono nem da dependência total, mas sobretudo apoios e muitas trocas.

Guedes (2000:71 e 76) vai mais além na análise dos estereótipos, documentando a própria atuação da Geriatria e da Gerontologia na construção ou manutenção daquela imagem de “doença social” e “abandono”:

“... o postulado da nuclearização da família e da sua incapacidade para integrar o idoso constitui-se num pressuposto da Gerontologia, fundamentando os discursos genéricos sobre a velhice. É daí também que decolam a indignação e a compaixão que vão pautar as intervenções dos geriatras e gerontólogos, em contraste com o descaso das famílias.” (grifos da autora)

Entre as características (novas, ou apenas recentemente percebidas), já agora assinaladas na literatura científica, estão exatamente aquelas que apontam ou expressam o crescente afastamento da tradicional imagem do idoso inativo, aposentado da vida, e sua expressiva substituição pela dos idosos dinâmicos, reunidos em grupos geracionais, e do contribuinte no orçamento doméstico e até, cada vez mais freqüente, esteio econômico do grupo familial. O que passa a significar a possível retomada, em muitos casos, de uma ascendência na família que sempre esteve ligada à figura clássica do provedor – ainda que na atualidade essa figura seja, frequentemente, feminina (Britto da Motta, 1998; Cabral, 1997 e 1998; Sardenberg, 1998).

É evidente que a retomada dessa ascendência ou autoridade realiza-se plena de ambiguidades, porque significando, para o idoso, ao mesmo tempo direção contestável, sacrifícios pessoais (proventos e pensões raramente satisfatórios, e ainda assim, divididos) e tornar-se alvo de múltiplas exigências – da sobrevivência, mas também de itens da sociedade de consumo – trajetória recheada de tensões e conflitos.

O que também significa, ou evidencia, que uma nova centralidade familial do idoso não se estabelece diretamente pelo lado positivo da construção “espontânea” de novas e melhores relações entre as gerações, mas sobretudo pelo lado negativo da pressão da crise econômica – do desemprego estrutural ou da precariedade dos empregos e pelo descarte progressivo das atribuições sociais do Estado.

Entre as características novas, e mais positivas, reconhecidas – embora não em todos os seus significados e consequências – na vida atual do idoso, está a expansão dos seus interesses sociais, ultrapassando exatamente o circuito familial – embora mantida toda a importância afetiva da família – espraiando-se até outros grupos e relações, principalmente por estímulos sociabilizantes – também de consumo... – dos grupos e programas de convivência, lazer e cultura para a “terceira idade” (Jelin,1994; Britto da Motta, 1997 e 1999a; Cabral, 1997).

Entretanto, essa documentação, formada basicamente pelo estudo de grupos e programas para a “terceira idade”, que são majoritariamente constituídos por idosos “jovens”, em torno dos 60 anos, ainda quando objeto de maior aprofundamento de análise deixa, por essa própria definição etária em que tem que se situar, uma dúvida.

E a situação social e familial dos velhos mais velhos – tão escassamente estudados – em que pontos assemelhar-se-á, ou não, às dos idosos “jovens”, inclusive na medida em que aqueles geralmente não estão engajados nesses grupos geracionais estimuladores de atividade e de sociabilidade?

Haverá, evidentemente, diferenças – que não virão apenas pelo fato de que os mais velhos estarão menos ágeis e vigorosos que os mais jovens ou com possíveis mais numerosos problemas de saúde, mas também porque o seu tempo social é originalmente outro, “habitus” (Bourdieu, 1989) formado em outro momento social e geracional, anterior às revoluções políticas e sociais de 30 (no Brasil) e dos férteis anos 60...

* * *

No processo de elaboração de trabalho anterior sobre a família do idoso (1998) – principalmente do idoso mais “jovem” – reuni reflexões que resumo aqui, inclusive expondo categorias com que trabalhei e trabalho, e que estão na base da análise comparativa que irei fazer dos modos de vida dos dois segmentos de idosos estudados – e que apenas iniciarei neste texto.

Não poderia falar em família sem ter bem presentes não apenas suas diferentes configurações segundo as classes sociais, mas também as relações que mais diretamente lhe dão forma e organização: as de gênero e entre as gerações. Também sem estar atenta aos ritmos diferenciais nos ciclos de vida – dos indivíduos e dos grupos domésticos – ao mesmo tempo que a uma visão do ponto de vista de trajetórias.

São importantes essas especificações, porque família “esconde” gênero e idades, do mesmo modo como ciclo de vida “solda” (portanto também oculta) as etapas do curso da vida. Ao mesmo tempo, as várias mudanças manifestam-se nessas dimensões, perpassam o mundo do trabalho e àquele âmbito retornam, moldando as novas configurações de família, na contemporaneidade. Têm a ver com a contraditória articulação dos movimentos do capital e seu reflexo/realização no âmbito das relações mais carregadas de afetividade e “história” das tradições.

Entre essas recentes configurações, estamos encontrando: grupos familiares durando mais tempo, como efeito da longevidade crescente da população; famílias mais extensas, ampliadas em combinações novas, ainda que nem todos vivendo na mesma unidade doméstica; coexistência, no tempo, de várias gerações, exigindo novos aprendizados de convivência; prementes apelos – e demandas do Estado – à solidariedade familiar, ou entre as gerações, e também instalação de novas formas de conflito; ampliação crescente das chefias femininas, mas a partir de motivações frequentemente diferenciadas segundo as várias classes sociais e as “idades”. Por fim, e importante, essa percepção: os seculares ciclos de vida modificando seu desenho tradicional, (o que venho designando como “reinvenção de fases”), com a saída mais tardia, ou nunca, dos filhos, da casa dos pais; manutenção ou retomada de chefia, e/ou papel principal de provedor(a), dos mais velhos, pais e avós; maternidades e paternidades precoces, “informais”, sem constituição de novo núcleo familial ou unidade doméstica; retorno de filhos adultos – sós ou acompanhados – à casa dos mais velhos (principalmente das mais velhas), por força de separações, precariedade de emprego ou desemprego.

Por fim, quase desnecessário dizer que essa trajetória teórico/temática foi alimentada pela percepção aguda da importância diferencial das idades/gerações na organização social e de suas transformações segundo o gênero (e vice-versa!); e de como transformações ou ajustes estruturais (por exemplo, a globalização), movimentos políticos (exemplo, o feminismo), e até as escassas políticas sociais alternam com os modelos tradicionais de comportamento para determinar essas novas configurações.

* * *

A curiosidade por um segmento populacional muito idoso e pouco conhecido (quem mais, além de Beauvoir (1990) e Camarano (1999) andou ocupando-se diretamente dos centenários?), a percepção da urgência desses estudos, e a possibilidade de uma análise comparativa dos modos de vida de duas “gerações” de velhos, levaram-me a realizar uma pesquisa exploratória, entre setembro de 1999 e julho próximo passado (Programa PIBIC/UFBA), que irá ter continuidade nos próximos dois anos (Bolsa PQ/CNPQ).

Ainda em processo de organização e análise preliminar do material coletado, aproveito a oportuna coincidência da reunião do GT Família e Sociedade para trazer alguns resultados preliminares da pesquisa e acolher sugestões. Daí o formato, ainda meio híbrido – entre artigo e relatório – deste texto.

II – OS MAIS VELHOS E SUAS FAMÍLIAS

Foram realizadas observação direta e entrevistas com 20 idosos maiores de 75 anos (1 exceção, de 70 anos) sem participação necessária em grupos, buscados quase todos no lugar de morada para essas entrevistas e a observação possível.

Localizados, através de conhecidos e outras relações cotidianas, 18 mulheres e quinze homens, uma questão de gênero aos poucos delineou-se: 13 desses homens não recusaram inicialmente a entrevista, porém marcavam e protelavam a conversa seguidamente, “sumiam” ou, na hora, recusavam a entrevista, sob variadas alegações, as mais recorrentes sendo “falta de tempo”, “reforma na casa” e não ter nada de bom para contar. Ao mesmo tempo, nenhuma mulher desistiu de dar a entrevista marcada. Somente dois homens, então, mantiveram o compromisso – pessoas do nosso círculo de conhecimento.

Como analisar essa situação? Menor satisfação com a vida, por parte dos homens idosos? (Britto da Motta, 1994). Mais tempo ocupado fora de casa? Ou o comum maior resguardo masculino em expor a sua vida privada?

As idades dos entrevistados agruparam-se, principalmente, entre 80 e 89 anos (nove casos, inclusive o de um dos homens). Cinco têm entre 95 e 102 anos. Aí o outro homem.

Nessa procura direcionada pela idade, o grupo resultou composto por maioria de pessoas de classes populares. Basta que se informe que uma boa parte deles (oito) não foi alfabetizada ou tem apenas o primário, incompleto (quatro) ou completo (cinco). Aí estão os dois homens. Mais que isso, apenas uma mulher com segundo grau completo (professora) e uma com nível superior (médica). Uma revivescência de antigo uso quanto à educação das mulheres de gerações mais antigas aparece em um caso: D. Adélia foi alfabetizada em casa. As mulheres encontram-se, então, em posições polares quanto à instrução: estão entre os que têm o nível mais baixo (não-alfabetizadas), mas também é delas o mais alto (segundo e terceiro graus).

Infelizmente cinco pessoas não informaram a renda – inclusive um dos homens. Dos que informaram, quase todos recebem, entre pensões e aposentadorias, 1 a 2 salários mínimos. Apenas um homem, funcionário público aposentado, e duas mulheres, uma viúva de farmacêutico e uma médica (casada e ainda em atividade nos seus 80 anos), recebem rendimentos bem acima disto: o homem tem cerca de quatro salários mínimos e as duas mulheres, vinte e trinta e cinco salários mínimos, respectivamente.

A fonte de renda, entretanto, só uma não declarou. Constitui-se, basicamente, de pensões ou aposentadorias, conforme referido, mas a elas também reúnem ajuda e bens familiares ou atividades extras, como artesanato ou costura e, no caso da médica, o atendimento em consultório.

Alguns dos que não declararam a renda ao referirem, entretanto, as suas fontes, deixam entrever algumas possíveis situações de razoável condição financeira: desde D. Dalva, 97 anos, que refere “pensão, aluguéis de casas e renda da filha e do genro” até alguns somatórios de aposentadorias ou pensão e renda de filha ou de filhos.

No passado essas pessoas constituíram-se em donas de casa (9), empregadas domésticas (5), uma parteira, um agricultor, um funcionário público, duas professoras e uma médica. Exceto pelas donas de casa e pela médica, que continua clinicando em cidade do Recôncavo baiano, as ocupações atuais são ocasionais, ligadas à esfera doméstica. Dos homens, o de 87 anos, vigoroso e animado para divertir-se, declarou que já trabalhou muito – “Agora, mais não”. O outro, de 100 anos, trabalhou até recentemente, quando quebrou uma perna e perdeu a autonomia para andar sem ajuda.

A viuvez, estado civil comum à maioria dos idosos de mais idade, é também a condição de grande parte das entrevistadas (13 casos), inclusive de um dos homens. O outro é casado pela segunda vez. Três mulheres também são casadas, duas são solteiras e uma é separada. Vivida com certa tranquilidade, a viuvez é comentada, às vezes, na referência de saudades. Nenhuma mulher quis ou conseguiu casar de novo. Uma delas cita, inclusive, algo nada incomum à sua geração, uma estranha idéia de fidelidade post-mortem: “Eu fiz uma jura a meu marido de que se ele morresse primeiro do que eu, outro homem eu não queria mais. Fiquei viúva com 40 anos e cumpri a jura...”

Também D. Lili, 86 anos, expressa uma “fidelidade“ ou, talvez predominantemente, uma moral rígida “à antiga”, mesmo: “Aqui tem uma criatura que diz que sou um exemplo: não quis saber de casamento, procedi bem, criei meus filhos com meu trabalho.”

Há posturas, entretanto, que parecem modeladas conforme o transcurso do tempo: enquanto D. Eurídice, 76, um mês de viúva quando da entrevista, chora ao responder: “A gente fica triste... porque perdi a minha companhia, porque vivemos bem tantos anos”, D. Elena, 100, “filosofa”: Ele morreu e eu enterrei. Me deixou uma casa para morar, não sabe? Graças a Deus vivo muito folgada. Muito bem, porque tenho meus filhos. Tenho muita saudade dele, mas o que é que eu vou fazer?”

D. Marieta, 76 e viúva há 19 anos, expressa a dificuldade de gerações de mulheres que eram preparadas apenas para a vida privada, quando subitamente se encontravam sós: “Quando a gente é muito dependente do marido, não é muito fácil, não. É o meu caso. A falta é grande. Eu sem ter hábito de nada, pela minha criação, vivia no meio da minha família, e depois que me casei continuei no mesmo ritmo. Não tinha outro movimento a não ser o de mãe de família.”

Já D. Ana, da mesma idade, mas de condição social diferente, ex-doméstica e hoje pensionista, declarou tranquilamente: “Dez anos que eu estou sem ele, mas não faz diferença nenhuma, porque eu já labutava minha vida sozinha. Tinha ele, mas pra mim era indiferente: eu trabalhava.”

Quinze delas são proprietárias da casa onde moram. Uma vive em asilo/residência, com bastante autonomia para circular. Apenas três moram em casa de filhos, inclusive um dos homens. No caso do outro, a casa é da esposa, ex-viúva, pensionista.

Todos recebem aposentadoria ou pensão – portanto, nenhum é totalmente dependente da família - e a maioria tem a sua própria casa. Mesmo assim, alguns referem receber ajuda dos filhos ou partilhar despesas com eles. Embora haja também os que sustentam a família.

Duas mulheres moram totalmente sós e uma em asilo/residência, como já referido. Esta é solteira, tem 85 anos. As outras, são: D. Laura, 84 anos, viúva sem filhos, saúde precária e muito otimismo e D. Marieta, 70, separada, com três filhos e inconformada. Os outros estão com pessoas da família – lembre-se que a maioria em casa delas próprias - ou então referem “acompanhante” (empregada), como é o caso de D. Eurídice, viúva, e D. Lili, também viúva, que está “criando” uma “menina” de 17 anos, há um ano. Os casados: D. Antonieta, 80, e D. Adélia, 76, moram com os maridos. Esta diz: “Só mora esses dois velhos brocos.” Mas Dra. Elba tem em casa, além do marido, treze outras pessoas da família, entre filhos, netos, bisnetos e sobrinhos. Esclarece: “Oficialmente, não. Mas todos os que moram em minha casa dependem de mim.” Sr. Domingos mora sozinho com a mulher (mas há filhos dela morando ao lado). Os outros viúvos, além das duas que moram com “acompanhante” e a que mora só, têm em casa variadas pessoas da família, em diferentes trocas de apoios.

Há, portanto, variados arranjos domésticos, tantos ou mais do que entre os idosos mais jovens. Morar só, afora contingências existenciais ou familiais, constitui-se em alternativa, num sentido de exercício de autonomia e liberdade, para os idosos, muito recente (Britto da Motta, 1998; Wagner, 1992). Não constituiu-se, entretanto, em preferência ou anseio destes idosos de maior idade. Foram, por isso mesmo, diferenciadas, as falas das que moram sós. D. Laura, 84 anos: “Não tenho o menor problema. Só agora que não posso cozinhar, mas com fé em Deus daqui a algum tempo eu não vou precisar de ninguém.”

D. Marieta, 70, bem mais jovem, fala, entretanto, queixosa e longamente: “Eu acho horrível morar sozinho, é triste, mas o que é que eu vou fazer! Eles casaram e foram morar na casa deles. Eles queriam que eu morasse mais eles, eu não quero morar mais ninguém. Eu quero tá na minha casa. Às vezes dá vontade (...) os netos, nenhum vai querer morar mais eu (...) é difícil eu ver eles, só quando eu vou lá. E ninguém vai gostar de velho. Às vezes tem dias que eu sinto mal, aí eu deixo a porta aberta (...) porque eu posso morrer... Meu filho me disse pra eu ir morar com ele, mas me disse que das minhas coisas eu não levava nada, aí não dá.”

Em outro momento, entretanto, diz: “Meus filhos são maravilhosos, todo dia eu agradeço a Deus ...”

As que não moram sós falam, realmente, a partir de uma avaliação de situação de cunho fortemente geracional, de idade avançada e receio de ocorrência de episódios graves ou inesperados de doença ou, mesmo, da proximidade, nessa fase mais nitidamente pressentida, da morte. Mas falam as mulheres, também, a partir de uma situação geracional que é ao mesmo tempo de gênero, enquanto mulheres criadas e vividas na e para a família, saindo pouco, quase sem laços fora do privado e, na velhice, sós.

Vejam-se os casos de D. Antônia, 80, e de D. Eurídice, 76:

“Horrível, porque fica solitário. Quem sai, ainda se distrai; quem não sai...”

“Morar sozinha é triste, a idade não permite mais...” (pausa) “Minha vida sempre é presa. Agora em diante (recém viúva) não sei... Porque eu sempre vivi junto com meu marido, trabalhando, olhando ele, que ele era doente... eu sempre vivi presa.”

Mas há também, quem, casada, fale como se morasse sozinha, sem quaisquer referências ao companheiro, como a própria citada D. Antonieta, além de D. Adélia, 76, que depois de expressar a vontade de ter companhia, revela que com o marido vive “mais ou menos”. Neste último ponto não se diferenciaram de vários dos idosos jovens, de ambos os sexos, que estudei anteriormente (1999), cujos companheiros não eram garantia contra a solidão.

Os dois homens acham morar só “estranho” ou “complicado pela idade”. No que também não se diferenciam dos homens mais jovens que já entrevistei (1998, 1999).

Em suma, com mais idade, nenhuma destas pessoas estudadas aspira ou está satisfeita em morar só, como está sendo bem comum entre os idosos jovens (com a única exceção de D. Laura, 84).

Os dois homens vivem situações pouco encontradas na sua geração: o de 100 anos declara que o filho é o chefe da família. O de 87 anos, que parece viver muito bem com a segunda esposa, mais uma vez fala no plural: “Eu e ela”.

Das três mulheres casadas, duas apontam a situação típica nas relações de gênero tradicionais: o marido é o chefe. Mas a terceira, a médica de 80 anos, declara que a chefe é ela, porque o marido, de 72 anos, prefere assim, “ficar mais leve”. Mas completa: “Não fui eu quem impôs isso, não.”

Entre as viúvas que não moram sós, sete declararam-se a chefe, porém três acrescentando, cautelosas: depois da morte do marido. As outras referem chefias de filhos, principalmente de filhas, mesmo quando a casa é delas, idosas. Entretanto, há ressalvas: “Eu me considero a chefe da família, mas hoje quem comanda tudo é minha filha Leonor.”; “Acho que agora eu sou a filha, inverteu, não sou mais a chefe.”

Mas não se encontram apenas traços geracionais. Existem várias gerações, simultâneas, mais e mais coexistindo. Traço recente, de uma época de crescente longevidade (Langevin, 1987; Goldani, 1993). Naturalmente, quanto mais avançada a idade dos idosos, mais gerações em presença. Nesta pesquisa, apenas as duas solteiras não têm filhos. E só elas e mais três não têm netos. Somente nove não têm bisnetos. Uma tem trinetos.

A importância do fazer doméstico para as mulheres, mesmo nessa idade mais avançada, persiste. Principalmente o cozinhar. Quatro se responsabilizam totalmente pelo trabalho da casa, três cozinham enquanto outras pessoas fazem a limpeza, outras dividem o trabalho com filhas e até diaristas. Poucas têm empregada, ou pelo menos reconhecem “acompanhantes” ou “menina que criam” como tal...

Os homens, “naturalmente”, estão eximidos dessas tarefas...

Quanto às relações de família, as referências, em geral, são a relações boas, como sempre que se fala a estranhos sobre família. O não tão bom fica às vezes nas “entrelinhas”, em formas como o “afinal, eu só tenho ela” (a filha). Ou o “eu faço por viver”. Apesar disto, houve alusões a uma grande decepção (não especificada) com a filha que cuida dela, quase centenária, hoje, e a um rompimento com o filho (de criação) que se tornou, depois de policial, marginal. Mas esta termina: “ele era um menino bom!”

Quase todas saem, movimentam-se, mais do que admitem nos primeiros momentos de conversa. Não tanto, estas de mais idade, quanto, evidentemente, as menos idosas da referida pesquisa anterior (1998). Há quem ache que não sai, ou sai pouco, na verdade, porque já não viajam muito para outras cidades.

Uma das de 76 anos, viúva recente, revela: “Minha vida é presa”, referindo-se ao tempo de casada, quando estava sempre com o marido, de pouca saúde. Mas termina dizendo, no que pareceu um momento de esperança: “Agora em diante não sei se vou ter [vida social].”

É preciso lembrar, também, que as mais velhas não foram socializadas para muita vida fora de casa. Ainda assim, não são raros os casos como o de D. Elena, 100 anos, saudável, elegante e segura de toda a decoração da casa, que conta: “Saía, hoje não. Eu digo, assim pro Interior, não saio mais. Agora, eu vou pro Bonfim... Ainda ontem, fui. Tem um padre lá que é meu amigo (...), me faz uma grande festa!”

A filha interfere: “Ela vai ao Shopping Barra, vai almoçar no Iguatemi... passeia tanto!”

Interessantes são os depoimentos de quase todos, e um dos mais surpreendentes, o de D. Bernadeth: 95 anos, viúva, mora com uma filha e dois netos. A família é extensíssima, frequenta bastante a casa e faz uma grande festa a cada aniversário dela. (Mais de 250 pessoas, informa). Há um ano anda com o apoio de uma muleta, depois que tomou queda, na rua, e fraturou uma perna e a bacia. É alegre, gosta de viver e se desenvolve bem em casa. Conta:

“Costumo viajar duas vezes por ano, com meus filhos, vou veranear em Jauá (agradável praia no litoral baiano), vou para Jequié, Paulo Afonso, Alagoinhas, Araçás. Vou para festas da Igreja de Itacaranha, em Salvador. Passeio muito.”

Sentir-se só apareceu, aqui, (não muito diferentemente do observado nos idosos mais jovens) como algo tanto subjetivo quanto – ou sobretudo – dependente da qualidade das relações realmente existentes: de família e convivência cotidiana, de amizade e vizinhança e de pertinência a grupos.

Pessoas casadas como D. Antonieta, 80 anos, e D. Adélia, 76, ou até com muitos parentes em casa como D. Elba, 90 anos, sentem-se sós. Falam nesses termos: “Sinto demais! (...) Acho ruim ficar só. Tem horas que até eu tô mais conformada, mas tem horas que eu acho ruim demais!” (D. Antonieta)

D. Adélia, rezadeira do lugar, morando com o marido, conta que tem sempre a casa cheia de gente para ser atendida. Mas em outro momento, desabafa: “Tem hora que eu fico chorando porque eu fico só. Porque a gente tem filhos, depois os filhos ficam tão longe da gente, tem hora que a gente sente saudades e não vê ninguém...”

Por outro lado, pessoas vivendo sozinhas, como D. Laura, 84, que está, inclusive, doente, surpreendem pelo otimismo e negam qualquer sentimento de solidão: “A porta já fica aberta. Eu gosto que as pessoas venham aqui. Toda hora tem gente aqui, sem falar nas meninas (vizinhas), que vêem me ajudar, trazem comida.”; “Não me sinto só. Me sinto é orgulhosa da vida, cheia de amor, de felicidade. Quando me chamam de coitada, eu digo: ‘Coitada não, eu me sinto cheia de amor’.”

Em termos quantitativos, à pergunta “Sente-se só”? responderam “não”, dez pessoas (inclusive os dois homens). Declararam que “às vezes sentem”, seis mulheres. E enfaticamente “sim”, somente quatro mulheres.

Pelo que se percebe, a idade mais avançada – com a consequente maior permanência em casa, – não contou muito para definir sentimentos de solidão. Pelo menos não com a generalidade que comumente se atribui, em avaliações que não recorrem à pesquisa.

O fato de que exatamente a metade dos entrevistados não participe de grupos, diferente do que é crescentemente comum na atualidade, entre os idosos “jovens”, e que, até, alguns declarem não gostar de grupos, provavelmente origina-se na socialização geracional voltada para a vida familial – tendência mais intensamente cristalizada nos mais idosos, principalmente as mulheres.

Os que participam de grupos, o fazem, em grande maioria, nos de caráter tradicional e não muito afastados das atividades de família: irmandades ou ordens religiosas. Um traço bem contemporâneo, entretanto, já se define em alguns casos: a pertinência concomitante a dois ou mais grupos. Das três referências a pertinência a grupos do tipo “moderno”, para a “terceira idade”, só uma foi a instituição laica: o clube Renascer (Salvador). Os outros dois são também organizados pela Igreja Católica.

Pelo que se pode ver, quanto às relações aqui analisadas, não se encontram diferenças radicais entre os modos de viver das duas “gerações” de idosos, como é muito comum supor-se, apenas pela assistemática e muda observação cotidiana. Há gradações e socializações mais diretamente geracionais.

III – À MANEIRA DE CONCLUSÕES

O que encontrei mais explicitamente sobre relações de família, nesta pesquisa, em comparação com a pesquisa anterior, com os menos idosos, foi:

Os muito idosos como figura menos central na família do que os “idosos jovens” (Britto da Motta, 1998). Apesar de todos terem algum rendimento, de aposentadoria ou de pensão, e de quinze dos vinte entrevistados serem proprietários da casa onde moram, alguns até tenham bons rendimentos, a ponto de sustentarem toda a parentela que mora com eles, a maioria, surpreendentemente, não se considera chefe da família, nem com autonomia para centrar as deliberações do grupo.

Além da que mora em asilo, portanto, fora da família, e das duas que declaradamente moram sós, há, na verdade, mais duas que não declaram viver sós, mas não têm familiares em casa, têm apenas “acompanhantes”/ empregadas.

Quinze, portanto, moram com a família, segundo diferentes arranjos: mas três dos quatro casados, apenas com o/a cônjuge. Uma mora só com a neta, outra só com a irmã e uma terceira com a filha. Os outros vivem com um número variável de familiares em casa, até o número de dezessete pessoas, de várias gerações. Vivenciando, então esses mais idosos, padrões novos de convivência, da simultaneidade ou justaposição de relações de parentesco – mães ou pais, avós, bisavós, triavós e tios ao mesmo tempo e no mesmo espaço, “um mostruário de papéis” como referi certa vez (1998), e, portanto, também a coexistência ou contemporaneidade de gerações.

Os arranjos familiares são, então, bastante variados, reciprocidades nas quais a figura da dependência pouco aparece, mesmo quando posta diretamente como questão. Apenas D. Aline, 81, viúva morando em casa da filha e encarregada “da parte do fogão”, declara: “Eu tenho minha aposentadoria, mas sou sustentada por minha filha.”

Por outro lado, apenas D. Elba, 90 anos, que tem dois filhos, um neto e um bisneto morando com ela e Dra. Elba, 80 anos que tem quatorze parentes em casa, declaram, respectivamente: “Depende tudo de mim”; “Oficialmente, não, mas todos os que moram em minha casa dependem de mim.”

O que encontrei realmente foi uma série de apoios, trocas e reciprocidades – tanto em termos de bens materiais (principalmente casa e móveis) como troca de serviços e divisão do trabalho doméstico. Em que, aliás, as idosas frequentemente dão uma contribuição ponderável, com suas aposentadorias, na propriedade da casa, e na cozinha, além da capacidade de agregação familiar (visitas e cuidados diretos) bastante encontrados entre os mais velhos.

Por isso mesmo, é relevante remeter, sempre, às políticas públicas e reiterar a importância de uma regulação justa das aposentadorias e pensões dos idosos, porque elas têm um significado ou um alcance que vai muito além da necessária contribuição para a sua sobrevivência individual, atingindo a própria reprodução das famílias.

Estudos recentes do IPEA (Camarano, Beltrão, 1998) reforçam essa análise quando revelam: “O rendimento do idoso é importante na renda familiar. Em 1996 sua renda total contribuía com 44% da renda familiar...”

Veja-se que mesmo os bastante velhos, conhecidos nesta pesquisa, em boa parte saem, movimentam-se, participam do trabalho doméstico e do círculo afetivo familiar, e , sobretudo, todos contribuem, de alguma forma, com seus rendimentos mensais, para o orçamento familiar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEAUVOIR, Simone. A velhice. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1990.

BOURDIEU, Pierre O poder simbólico. Lisboa : Difel, 1989.

BRITTO DA MOTTA, Alda. Chegando pra idade. In : REUNIÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, 19., 1994, Niterói . (Publicado em LINS DE BARROS, Myriam Moraes (org.) Velhice ou terceira idade? (Estudos antropológicos sobre identidade, memória e política). Rio de Janeiro : Fundação Getúlio Vargas, 1998;

————. “Terceira Idade” - gênero, classe social e moda teórica. In : ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS - GT Relações Sociais de Gênero - 20., out. 1996d, Caxambú/MG. (Publicado em COSTA, Ana Alice A., ALVES, Ívia Iracema (org.). Ritos, mitos e fatos - mulher e gênero na Bahia. Salvador : NEIM, 1997. p. 103-120. Coleção Bahianas 1.)

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